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Dicas para subir (bem) o Pico da Bandeira

jul 05, 2024 Adriana Magalhães
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Essas dicas são do meu marido Bruno que visitou pela terceira vez o Pico da Bandeira, em 2023, com 5 adolescentes.

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Bora fazer um bate e volta no Pico da Bandeira com os moleques? E com esse convite do amigo de infância teve início mais uma viagem para o terceiro ponto mais alto do Brasil.

O Pico da Bandeira na década de 1990

Mais uma viagem? Sim, eu já tinha ido outras duas vezes com esse amigo, o Ricardo, ou simplesmente Xys. Uma, apenas nós dois, num Ford Pampa, que nos serviu de hospedagem depois da subida ao cume. Isso no longínquo ano de 1991. Outra, também com esse amigo, e mais uma galera, em 1996.

A diferença, agora, é que iríamos levar os filhos adolescentes.

Planejando a viagem ao Pico da Bandeira

Cada ida ao Caparaó teve uma história diferente. Vou falar desta última, porque aí já apresento as dicas para quem planeja fazer esse belo passeio. A primeira delas é entrar na página do parque no ICMBio, coletar informações sobre as duas entradas do parque (portaria de Pedra Menina-ES ou do Alto Caparaó-MG) e fazer a reserva para os acampamentos, caso a ideia seja dormir por lá.

O Pico da Bandeira é o terceiro ponto mais alto do Brasil, com 2891,32 metros acima do nível do mar. Está no Parque Nacional do Caparaó, que abrange parte da Serra do Caparaó, na divisa dos estados do Espírito Santo e de Minas Gerais. Cinco dos 10 picos mais altos do Brasil estão no Parque Nacional, segundo o ICMBio. A região é linda demais. Pena que pra chegar lá tenhamos que sofrer nas péssimas estradas mineiras.

Saindo de Brasília rumo ao Caparaó

Fomos em dois carros. Eu saí de Brasília numa terça-feira por volta das 7h da manhã. Junto com o filho de um amigo que não pôde ir, botamos no Waze o aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, onde pegaríamos meu filho, Léo, que estava chegando do Rio de Janeiro. De lá seguimos para Lagoa Santa, a alguns quilômetros de Confins. Nos hospedamos no Lagoon Prime Hotel, excelente. O atendimento foi de uma simpatia só e o café da manhã farto, variado e… mineiro! Pão de queijo tradicional e ainda pão de queijo de provolone, adorei!

A cidade foi uma bela surpresa. Como o nome já indica, fica em volta de uma lagoa bem bonitinha, cheia de capivaras, gente praticando esportes, restaurantes e barezinhos. Foi uma noite bem gostosa com os meninos depois de um dia dentro do carro. Por recomendação da recepcionista do Lagoon, jantamos no Boi Lourdes. Comida farta e preço honesto.

Lagoa Santa/MG

As péssimas estradas mineiras

750 km completados, apenas mais 350 km por vir. Mas, PQP, que final osso!!!! Viajei durante minha infância inteira de Brasília para Juiz de Fora e para Guarapari. Então eu sabia que o anel viário de BH era enjoado. Tracei uma rota de Lagoa Santa que minimizasse as vias repletas de caminhões que entram e saem da capital mineira. Adiantou bastante, saí quase no finalzinho, com apenas um pouquinho de trânsito forte. Na pista do sentido contrário e atrás de mim um engarrafamento monstruoso. Meu amigo Xys, que passou por ali mais tarde, não teve tanta sorte. Ficou 2 horas parado.

Mas o problema não era apenas por conta do engarrafamento. O asfalto era um lixo. Sinalização, zero. Caminhões em estado de ferro-velho trafegando. Fiquei com a nítida impressão de que as BR-262 e 381 estavam do mesmo jeito da última vez que por ali passei, na década de 90.

Pelo menos o visual, tanto na saída de BH quanto na aproximação do Caparaó, compensa. Isso quando eu podia deixar de prestar atenção no asfalto e nas placas alertando para buracos e perigos (não seria mais fácil consertar os buracos e os perigos?). Me solidarizei com os outdoors de moradores da região cobrando a duplicação das vias.

Os últimos 100 km foram um tormento. Na chegada em Manhuaçu fiquei atrás de 2 caminhões bastante pesados que rodavam a 40 km/h. Na descida! Até Manhumirim nessa toada, sem terceira faixa ou ponto de ultrapassagem. Depois dos caminhões virarem, a dificuldade era mesmo a pista, bastante sinuosa, entre morros e mais morros com café. Não desejo a ninguém chegar cansado ali. Pra reduzir o stress, uma boa pedida é chegar num domingo, com menos caminhões.

A chegada a Caparaó, finalmente

A chegada em Caparaó é linda. A gente tem, enfim, a dimensão do tamanho da serra que envolve o Pico da Bandeira. Sem contar os ipês amarelos que enfeitavam ainda mais o final de tarde.

Nossa pousada em Alto Caparaó, Cantinho Bistrô, era muito gostosa, simples mas aconchegante desde o primeiro contato pelo telefone e whatsapp. Na frente dela, na praça da Matriz, fomos almoçar num típico restaurante mineiro de nome…. Restaurante Mineiro. Que comida maravilhosa! 30 reais e à vontade no fogão a lenha! Minas é um trem bom demais, sô. Depois um café espresso para fazer jus às premiações da região no Café Tavares. Café muito bem tirado, que mereceu depois um espresso tônica refrescante e outro espresso na manhã seguinte. Tudo bem pertinho, pra percorrer a pé e “fazer o quilo” depois de tanto pernil, torresmo e frango. De noite, já com o resto da turma que passou o dia inteirinho na estrada, um vinho e massa na All Forno Gourmet para relaxar porque o dia seguinte era de caminhada.

Alto Caparaó

Alto Caparaó

Entrando no Parque do Caparaó

A temperatura estava bem agradável quando amanheceu. Tempo bom, mas quando eu comprava café em grãos numa agência de excursões da cidade me falaram que lá no cume chovia e fazia muito frio. Ok, estávamos preparados, pensava eu àquela altura… então depois do café da manhã e do almoço em nossa pousada Cantinho Bistrô, que também é restaurante típico mineiro e fica no finalzinho da cidade, seguimos pra entrada do Parque Nacional.

O funcionário foi bem simpático, perguntou se tínhamos feito a reserva, apresentamos os nomes, ele anotou a placa dos carros e nos deu a identificação para deixarmos no painel do carro. Me surpreendi que a reserva tinha funcionado. Algumas recomendações do ICMBio:

A  VISITAÇÃO DIURNA ao Pico da Bandeira, com entrada e saída no mesmo dia dispensa a reserva, contudo, o visitante precisa adentrar na portarias do Parque entre 7 e 8 horas da manhã. Após as 8h da manhã não é permitido o acesso nas portarias com a finalidade de caminhar até o Pico da Bandeira para saída no mesmo dia.

Equipamentos obrigatórios para o Pico da Bandeira

EQUIPAMENTOS OBRIGATÓRIOS: Para acessar a trilha, que leva até ao Pico da Bandeira, além da apresentação da ficha de identificação, são exigidos os seguintes equipamentos:

  • LANTERNA (individual). Não pode ser lanterna do celular;
  • calçado fechado e adequado à caminhada (bota ou tênis);
  • agasalho e/ou roupas que protejam do frio;
  • água e alimentação.

A entrada do parque está a mais ou menos mil metros de altitude. A gente seguiu de carro até o acampamento da Tronqueira, mil metros pra cima. Aqui deixamos o carro estacionado e começou nossa caminhada, rumo ao próximo passo, o Terreirão. Meu Garmin marcou 3,84 km, saindo de 1956m e parando em 2397m, ou seja, impensáveis 461 metros de desnível em cerca de duas horas. O início é bem duro, muitas pedras altas pra transpor, mas depois vira uma trilha bem agradável. Em alguns momentos, inclusive, com sinal de celular. O finalzinho volta a ter uma inclinação mais forte mas nada de sobrenatural, mesmo com a mochila pesada nas costas. O difícil mesmo foi aguentar a friaca que se abateu sobre a gente no final da tarde.

Pico da Bandeira

Pico da Bandeira

O acampamento do Terreirão

O acampamento do Terreirão fica no meio do caminho pro Pico da Bandeira. Assim como o Tronqueira, conta com banheiros, água potável, área com mesas para comer, gramado pra montar as barracas. Estrutura muito boa. No Terreirão existe ainda uma “casa de pedra” que nos salvou do frio absurdo que fazia quando chegamos. As paredes foram EXTREMAMENTE bem-vindas para prepararmos nossa janta protegidos do vento e da garoa que lambia o acampamento praticamente na horizontal. Um frio que gelava a espinha. Levei um termômetro de ambiente e ele marcava 6 graus. A sensação térmica, por conta do vento, no entanto, eu cravaria ali nos 5 negativos. Todo mundo pegando casaco e correndo pra um macarrão quente!

Casa de Pedra - Pico da Bandeira

Casa de Pedra - Pico da Bandeira

Quem acampa sabe que o melhor momento é quando todos se reúnem pra comer em volta de uma fogueira ou do fogareiro. Mas ali todo mundo comeu e correu pra barraca. Não tava nem escuro e já tinha gente no saco de dormir! Nosso planejamento, de sair às 4h da manhã pra caminhada rumo ao cume, eu pensava comigo, já tinha ido pro beleléu. Sem chance de colocar 5 adolescentes em ponto de marcha, com água na mochila e lanternas na cabeça, numa madrugada congelante.

Sola do sapato perdida no Pico da Bandeira

Eu ainda tinha um problema que ocupava meus pensamentos. A bota que meu filho Léo usou na primeira perna, da Tronqueira ao Terreirão, uma Timberland um pouco velhinha demais, simplesmente perdeu o solado. Eu fui dormir e pensei: “bem, eu já subi outras duas vezes, passo minha bota pro Léo e vou até onde der com a bota estragada, pelo menos para umas fotos”.

Bota detonada

A trilha pro Pico da Bandeira

Por volta de umas 3h da madrugada, saí da barracada para um xixizinho e a noite estava linda. Super estrelada, fria, 4 graus, mas nada de vento. Voltei pra barraca e, por volta das 6h, acordei de vez. Começamos a preparar o café, chá, sanduíches, o sol chegando, iluminando o Pico do Cristal, tudo pronto pra um dia lindo. Arrumamos as coisas e tomamos o rumo do Pico da Bandeira um pouco antes das 8h. O Léo com minha bota The North Face e eu com o resto que sobrou da Timberland. A palmilha até que resistiu bem. Na subida o peso se distribui melhor então ela foi me deixando sonhar com o cume. E cheguei lá. Depois de 3 horas de caminhada, 3,39km de trilha, 541 metros de desnível com a dificuldade maior no final.

Só pra ficar registrado: a estátua de Cristo no Corcovado se ergue a 710 metros de altitude. A torre Eiffel tem 300 m e a torre de TV de Brasília 224m. Pense então em tudo o que subimos no ataque final ao Pico da Bandeira.

A meninada deve ter chegado uma meia hora antes de mim. Nas outras duas vezes em que fui ao Pico da Bandeira, ou estava de noite ou o tempo estava absurdamente fechado e não tive a oportunidade de enxergar o cume durante a subida. Desta vez a cruz e a antena do alto do Pico da Bandeira estavam bem visíveis desde bem cedo. Fazia 15 graus lá em cima, sem vento, vista livre para todos os lados e um colchão de nuvens abaixo de nós. Uma vista que vale demais. A molecada tirou a camisa e pegou um solzinho, 3 mil metros mais perto dele que ao nível do mar.

Pico da Bandeira

Pico da Bandeira

Pico da Bandeira

Pico da Bandeira

Mar de nuvens no Pico da Bandeira em 1996, com a autora do blog
Mar de nuvens no Pico da Bandeira em 1996, com a autora do blog

Pico da Bandeira totalmente encoberto em 1996

Rompimento de tendão na volta

A descida, em sua primeira parte, era mais técnica, inclinada. E eu já estava sem as palmilhas e apenas de meias. Não deu outra: tomei uma queda feia. A gravidade foi implacável. Com todo o peso do meu corpo equilibrado numa das pernas  e o pé numa rocha pontuda, fui me apoiar no bastão de caminhada e “crack”. Meu ombro direito estourou e aí foi dar um rolamento e minimizar os danos. Imagina a volta dirigindo até Brasília um carro manual? A ressonância mais tarde mostrou o rompimento dos tendões supra e infraespinhal e parcial do bíceps. Lembram lá da recomendação do ICMBio de “calçado fechado e adequado à caminhada (bota ou tênis)”? Pois é, se eu tivesse inspecionado a bota antes de ir não teria tido o acidente.

Outra coisa bem recomendável é sempre ir pra uma trilha dessas com uma silver tape na mochila. Aliás, meu amigo até tinha levado a silver tape mas não achou. Ele pensava que tinha ficado no carro. Depois, quando foi desarrumar a mochila no hotel, encontrou a fita… é, quando é pra ser, não tem jeito. Dois meses depois operei o ombro e desde então a fisioterapia tem sido minha montanha praticamente diária…

Trilha para o Pico da Bandeira

Trilha para o Pico da Bandeira

Trilha para o Pico da Bandeira Trilha para o Pico da Bandeira Trilha para o Pico da Bandeira

Valeu demais!

Vale o passeio? Demais. Se tivéssemos estradas minimamente decentes pra chegar em Alto Caparaó, seja por Belo Horizonte ou Vitória, seria um programa de nível internacional e algo para se fazer em diferentes etapas da vida. As vistas são lindas, a infraestrutura do parque é muito boa, o desafio do clima e da altitude se iguala a de trilhas nas Dolomitas, na Itália. Faltava só um pouquinho de neve, mas apenas pra compor o visual. O frio já é mais do que suficiente…. Tá esperando o que pra conferir?

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